Criatividade: como superar o medo de falhar

by Jairo Siqueira · 0 comments

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PonteSempre que você tenta fazer alguma mudança, ou criar algo novo, um dos ingredientes mais importantes é a convicção de que você pode ter sucesso no que está tentando realizar. Você pode ter o desejo e os conhecimentos para realizar o trabalho, mas se não acreditar que pode você nem tentará. O medo de falhar é um dos maiores obstáculos à criatividade e inovação, tanto no nível individual, como no nível organizacional.

No nível individual, o medo de falhar está associado aos temores de parecermos ridículos, incompetentes ou irresponsáveis; de sermos punidos e prejudicados na nossa carreira. Decorre também de nossa educação formal, que nos exige sempre acertar na primeira vez, ignorando o que se passa no mundo real. No mundo real as coisas são bem diferentes, pois temos de lidar com incertezas, e o certo e o errado nem sempre são claros. Para crescer, temos de experimentar, errar às vezes, tentar de novo e aprender com nossos erros e sucessos. A opção de não arriscar e fazer sempre a mesma coisa é a opção pela mesmice e mediocridade.

No nível organizacional, há uma batalha permanente entre lucratividade no curto prazo e crescimento. A lucratividade requer eficiência, processos estáveis e controlados, padronização e previsibilidade. O crescimento requer inovação, mudanças nos processos, fuga da rotina e assumir riscos. A opção pelo crescimento implica numa certa tolerância a tentativas erradas, pois a realidade mostra que raramente a inovação nasce de uma única idéia brilhante. Muitos casos de sucesso são construídos sobre algumas dezenas, centenas ou mesmo milhares de experimentos fracassados.

Criando uma cultura de experimentação

Criar uma cultura organizacional focada na experimentação é mais difícil do que parece. Significa a disposição para arcar com os custos de tentativas fracassadas até se chegar ao sucesso. Requer o balanceamento entre os custos dos experimentos e a expectativa de receitas com o novo produto, processo ou tecnologia; um exercício que combina tirocínio empresarial, intuição e alguma sorte.

Uma conversa de Thomas Edison e Santos Dumont revela como este exercício pode ser difícil. No encontro, Edison confidenciou a Santos Dumont que já tinha se interessado por aeroplanos e feito algumas experiências sem sucesso. Contudo, como ele não via um bom mercado para aeroplanos, achou que não valia a pena continuar e desistiu logo no início.

Como se sabe, na invenção da lâmpada elétrica, Edison não economizou recursos na procura de um filamento que tivesse uma vida útil econômica. Entre 1878 e 1880, testou mais de 6.000 materiais até chegar a uma solução. Em cada fracasso, tirava suas lições e planejava novas tentativas. Edison dedicou três anos e uma considerável quantia em dólares porque ele sabia que o prêmio era muito alto, no mínimo uma lâmpada em cada residência.

É assim que funciona a cabeça do empresário, pesando os riscos da aventura contra as promessas de lucros futuros. Investimentos sem retorno podem comprometer a saúde financeira e a continuidade de seu empreendimento. Até onde continuar com os experimentos e qual o limite de gastos? Não há respostas fáceis e a implantação de uma cultura de experimentos requer uma disciplina para evitar o desperdício irresponsável de recursos.

Experimentação disciplinada

A experimentação deve seguir uma disciplina que assegure a escolha de temas alinhados com os objetivos estratégicos do negócio e a aplicação de critérios para avaliar em cada etapa se o experimento deve continuar ou ser abortado. Os elementos mais importantes desta disciplina:

  1. Estruture um processo que abranja desde a seleção dos experimentos até a conclusão, passando por etapas intermediárias bem definidas.
  2. Comece o processo com um desafio especifico ligado aos objetivos estratégicos, de forma a assegurar a relevância do processo e dos resultados.
  3. Defina critérios de avaliação os mais específicos possíveis, bem como relevantes em relação aos objetivos estratégicos. Isto é crítico para uma abordagem disciplinada e fundamental para evitar acusações na ocorrência de fracassos.
  4. Submeta todos os protótipos e idéias a uma análise rigorosa. A habilidade de se construir sobre o que funciona e de mudar o que não funciona está baseada no conhecimento que surge desta análise.
  5. Quando um projeto for abortado, documente todas as lições aprendidas, inclusive o que pode ser aprendido sobre o próprio processo de experimentação.

Aprenda com seus sucessos e fracassos

Tenho lido muitas besteiras sobre criatividade, erros e aprendizado. O medo de errar pode ser paralisante, mas por outro lado não devemos partir para a apologia do erro como instrumento catalisador da criatividade. É claro que a criatividade envolve correr riscos e aceitar alguns fracassos, mas daí chamar estes fracassos de “erros gloriosos” e sugerir que sejam premiados é um absurdo inaceitável.

Outra besteira muito disseminada é a de “não existe aprendizado sem erro”, ou seja, torna o erro uma atividade essencial para o aprendizado. O sensato e correto é “não deve existir erro sem aprendizado”, ou seja, temos de tomar cada erro, refletir sobre suas causas e adotar as medidas para que não se repitam. Devemos também refletir sobre nossos sucessos e procurar replicar o que deu certo em outros projetos.

A experimentação disciplinada nos fornece um processo para reduzir os erros, bem como para torná-los numa oportunidade de aprender, criar e inovar. Ela ajuda a criar um ambiente propício à criatividade e inovação, definindo as regras para a seleção, condução e avaliação dos experimentos. Assim, os erros porventura cometidos são decorrentes de tentativas honestas, planejadas e bem intencionadas de se fazer algo novo ou diferente.

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