A arte das perguntas criativas e desafiadoras

por Jairo Siqueira · 17 comentários

em Criatividade, Inovação

Hoje em dia, quando a inovação permanente se tornou um dos fatores essenciais para o sucesso e sobrevivência das organizações, a expressão “pensar fora da caixa” (thinking outside the box) se tornou o mantra de muitos profissionais dedicados à criatividade e inovação. Pensar fora da caixa significa pensar diferente, de forma não convencional, romper com os paradigmas e ideias dominantes.

A necessidade de escapar do pensamento convencional para se obter soluções inovadoras, foi clara e objetivamente ressaltada por Einstein: “Os problemas não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento que os criou.”

Mas como escapar da caixa? Como levar nosso raciocínio para outro nível de pensamento? A resposta está nas perguntas que fazemos, no modo como formulamos nossos desafios. Para escapar da caixa precisamos de perguntas vigorosas que somente podem ser respondidas fora dos paradigmas dominantes, muito além das restrições impostas pela maneira atual de pensar. Perguntas cujas respostas explorem novos caminhos e possibilidades, e não que justifiquem as suposições e limitações da situação vigente. Perguntas tímidas fornecem respostas dentro da caixa, perguntas vigorosas libertam nossa imaginação.

Por que não fazemos boas perguntas?

Se fazer boas perguntas é essencial, porque não dedicamos mais tempo e energia na criação de perguntas criativas e desafiadoras? As principais razões estão na nossa educação e nas práticas gerenciais de muitas organizações.

A cultura que orienta nossa educação focaliza mais o aprender a “resposta certa”, através da memorização de respostas prontas, ao invés de valorizar a arte de formular a “pergunta certa”. Testes, exames e concursos reforçam o valor de ter a resposta certa. Professores dogmáticos se preocupam mais em disseminar suas convicções do que desenvolver as habilidades de raciocinar e questionar em seus alunos. Alguém já disse: “Não é a resposta que nos ensina, mas a pergunta.”

As práticas gerenciais nas organizações não mostram muita tolerância para as mentes criativas e questionadoras. Essas práticas valorizam mais aqueles que agem rápido e dentro das regras estabelecidas, mesmo que as causas dos problemas permaneçam intocadas e as “soluções” tenham efeitos transitórios. O ritmo rápido dos negócios reduz o tempo disponível para explorar novas possibilidades e oportunidades de inovação. O futuro acaba sacrificado pela correria do dia a dia, as urgências não deixam espaço para as coisas importantes e as perguntas inovadoras não são formuladas.

O que faz uma pergunta vigorosa e desafiadora?

As boas perguntas são aquelas que nos dirigem para fora da caixa e nos levam a explorar novos caminhos, a dar asas a nossa imaginação e procurar respostas não convencionais. Uma pergunta vigorosa:

  • Desperta a curiosidade.
  • Estimula a reflexão e a criatividade.
  • Revela e desafia as suposições e crenças da situação vigente.
  • Abre novas perspectivas e possibilidades.
  • Gera energia e movimento.
  • Canaliza a atenção e promove a investigação.
  • Promove novas abordagens e a cooperação entre pessoas e equipes.
  • Dá origem a mais perguntas.

A arquitetura das perguntas vigorosas

As perguntas vigorosas podem aumentar drasticamente a qualidade da reflexão, inovação e ação em nossas organizações, no nosso trabalho e em nossas vidas. Elas têm o poder de se espalharem por toda a organização e de provocar mudanças profundas e em larga escala.

Assim sendo, o conhecimento da estrutura básica de formulação de uma pergunta vigorosa é uma habilidade essencial para se explorar todo o seu potencial. De acordo com os estudos de Eric E. Vogt e sua equipe, as perguntas vigorosas têm três dimensões: construção, escopo e suposições. Cada dimensão contribui para a qualidade das ideias, do aprendizado e do conhecimento que surgem da pergunta vigorosa e desafiadora.

Dimensão 1: A construção da pergunta

O modo como a pergunta é construída pode fazer uma diferença enorme na abertura ou fechamento de nossas mentes na consideração de novas possibilidades. Uma pergunta pode ser fechada, levando a somente duas opções, sim ou não, ou pode ser aberta, abrindo uma ampla janela para uma grande variedade de respostas.

A figura a seguir mostra as formas mais usuais de palavras interrogativas que podemos utilizar na construção de uma pergunta.


As perguntas menos vigorosas estão na base da pirâmide e se tornam mais vigorosas à medida que caminhamos para o topo.

Pra ilustrar, considere a seguinte sequência de perguntas:

  • Você está satisfeito com nossos serviços?
  • Quando você teve a maior satisfação com nossos serviços?
  • O que em nossos serviços você considera mais satisfatório?
  • Por que será que nossos serviços têm seus altos e baixos?
  • Como podemos melhorar nossos serviços aos clientes?

À medida que nos movemos da pergunta sim/não para perguntas cada vez mais abertas e vigorosas, as questões tendem a estimular pensamentos mais reflexivos e instigantes. As questões baseadas nas perguntas mais vigorosas provocam pensamentos mais criativos e profundos.

Uma nota de precaução: o uso do interrogativo por que deve ser feito com cuidado para evitar posições defensivas por parte dos respondentes. A pergunta deve ser estruturada de forma a gerar curiosidade e o desejo de esclarecer as causas do problema analisado, ou de explorar possibilidades ainda não pensadas. Uma variação útil é o por que não?

Dimensão 2: O escopo da pergunta

Além dos cuidados na escolha das palavras para construir a pergunta, é também muito importante a adequação do escopo da questão às nossas necessidades. Considere as três perguntas a seguir:

  • Como podemos melhorar a qualidade do produto X?
  • Como podemos melhorar a qualidade de nosso departamento?
  • Como podemos melhorar a qualidade de nossa empresa?

Neste exemplo, as perguntas ampliam progressivamente o escopo do desafio, considerando sistemas cada vez mais abrangentes. Para tornar suas perguntas vigorosas e objetivas, defina o escopo do modo mais preciso possível para mantê-lo dentro de limites realistas e conforme as necessidades da situação em que esteja trabalhando. Não vá além e nem fique aquém do necessário.

Dimensão 3: As suposições embutidas na pergunta

Quase todas as perguntas que fazemos trazem embutidas, de forma explicita ou implícita, suposições que podem ou não ser compartilhadas pelo grupo envolvido na exploração de novas ideias. Por exemplo, a pergunta “Como reduzir os preços de nossos produtos para torná-los mais competitivos?” assume que preços altos são a causa da falta de competitividade. Esta suposição pode não ser compartilhada por todas as pessoas do grupo de estudo, criando decepções, desmotivação e outras atitudes negativas. Como formulada, a pergunta restringe a exploração de ideias, deixando de fora outras ideias que podem ser exploradas relacionadas à qualidade, produtividade, ações de marketing, canais de distribuição, serviços, etc.

Para formular perguntas vigorosas, é importante estar ciente das suposições e usá-las adequadamente. É sempre aconselhável examinar a pergunta e identificar as suposições e crenças embutidas e como elas podem ajudar ou dificultar a exploração de novos caminhos de pensamento. As boas perguntas:

  • Ampliam as perspectivas e estimulam a cooperação entre os envolvidos.
  • Não incluem soluções e nem direcionam ou limitam a exploração de alternativas.
  • Não incluem suposições ou suspeitas de erros e culpas e evitam atitudes defensivas.

Esclarecendo ou alterando as suposições, podemos mudar o contexto da pergunta e criar novas oportunidades de inovação. Compare as duas perguntas seguintes:

  • Como podemos nos tornar o melhor departamento da empresa?
  • Como podemos nos tornar o melhor departamento para a empresa?

Uma pequena mudança altera totalmente as regras do debate. A primeira pergunta isola o debate dentro dos limites do departamento. A segunda pergunta permite ampliar o debate e trazer contribuições de todos os outros departamentos da empresa e de pessoas de fora.

Pelo entendimento e consideração consciente das três dimensões das perguntas vigorosas, podemos aumentar o poder desafiador de nossas perguntas e, como resultado, melhorar e aumentar nossa habilidade de gerar ideias criativas e inovadoras. Boas perguntas nos ajudam a romper os bloqueios mentais, incentivam a criatividade, promovem a cooperação, nos levam a múltiplas respostas e criam variadas alternativas. Perguntas fracas e tímidas nos mantêm prisioneiros das formas tradicionais de pensar e fornecem respostas convencionais e óbvias.

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Andre Luciano da Silva maio 15, 2017 às 11:52

Muito interessante este site.

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Angelamaria março 1, 2017 às 10:50

Bom dia,
Parabéns pelo artigo!

Sucesso.
Ângelamaria

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Jairo Siqueira março 1, 2017 às 17:00

Ângelamaria, obrigado.

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Célia Mendes abril 7, 2015 às 19:11

Parabéns, gostei muito desse artigo.

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Luís abril 3, 2015 às 13:11

Parabéns pelo artigo Jairo, é excelente isso de explorar as perguntas no estimo da reflexão e criatividade. No meu ambiente de trabalho utilizamos frequentemente a ferramenta da qualidade 5 porquês para determinar a causa raiz do problema, e realmente não é fácil fazer perguntas vigorosas. O seu artigo me contribui com mais conhecimento em uma área de difícil aplicação: CRIATIVIDADE.

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Jairo Siqueira abril 3, 2015 às 19:51

Luís Eduardo, obrigado pelos comentários. Você, que está envolvido na solução de problemas e na melhoria contínua, sabe a importância das boas perguntas.

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Paulo abril 8, 2013 às 10:07

Muito bom o texto, assim como todos os demais que já li em sua página. Apenas como contribuição:

“O sábio não é o homem que dá as verdadeiras respostas: É aquele que faz as verdadeiras perguntas.” Claude Lévi-Strauss

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Jairo Siqueira abril 9, 2013 às 17:48

Paulo, obrigado pela participação e pela contribuição.

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tamires fevereiro 26, 2013 às 19:14

A arte é excício da criatividade

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Breno Marques março 27, 2012 às 15:05

Fantástica a observação de Eric E. Vogt e sua equipe ao enfatizar que as perguntas vigorosas têm três dimensões: construção, escopo e suposições. Ao elaborarmos uma pergunta é comum e mais fácil falar das características das respostas que desejamos receber, mas penso que o mais importante é ressaltar os benefícios que a “nova” resposta tem para nos oferecer ao sabermos ouvir mais ao invés de falar mais.

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Jairo Siqueira março 28, 2012 às 10:58

Breno, ao contrário do estereótipo criado pelo cinema e pela televisão do líder falante e gritador de ordens, o verdadeiro líder criativo é aquele que sabe extrair as contribuições das pessoas através de perguntas vigorosas que estimulam atitudes questionadoras e inovadoras e que, acima de tudo, sabem se calar e ouvir com respeito e atenção. Grato pela participação e valiosa contribuição.

Jairo

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Marcel Almeida agosto 23, 2011 às 10:59

Excelente texto! Além de estimular a reflexão sobre as perguntas, passa uma estruturação de como fazer melhores perguntas.
Adicionaria mais um conceito sobre a perspectiva para a qual olhamos quando realizamos as perguntas. Se nosso foco é no processo, olhamos e refletimos somente sobre o processo, geralmente as inovações geradas serão simplesmente incrementais. Quando mudamos o olhar para a perspectiva comportamental – como as pessoas enxergam o processo, como reagem, como se sentem ou como interagem, passamos a ampliar bastante nosso escopo aumentando a possibilidade de gerar inovação de ruptura e não somente incremental.

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Jairo Siqueira agosto 24, 2011 às 04:35

Caro Marcel, Obrigado pela valiosa participação e pela sugestão. Sugiro a leitura do artigo “o processo criativo” onde você encontrará uma visão mais abrangente de todo o processo.
Abraços,
Jairo

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Jairo Siqueira agosto 3, 2011 às 20:26

Prezado Francisco,
Obrigado por seu comentário. Salvo algumas exceções, a escola e os pais não se preocupam, ou não sabem, como desenvolver o pensamento crítico dos jovens. Como resultado, nos transformamos numa sociedade passiva e dominada por vigaristas.

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Francisco Wagner agosto 3, 2011 às 18:35

Excelente texto, parabéns. Devemos desde cedo incentivar nossos filhos a usarem o raciocínio. Percebo que as perguntas “medíocres” fazem com que as crianças tenham preguiça de pensar, e esse hábito levamos ao longo da vida. Por isso devemos começar cedo, assim nossas crianças crescerão fazendo perguntas criativas e desafiadoras de forma natural, e serão mais questionadoras. Se seu filho pedir uma bicicleta de presente não pergunte simplesmente “qual modelo você quer?”, mas faça desse simples pedido uma forma de incentivar o diálogo e o raciocínio da criança e pergunte “por que você gostaria de ganhar uma bicicleta?” e continue o diálogo de acordo com as respostas dele “o que você vai fazer para cuidar da sua bicicleta? Onde você gostaria de passear de bicileta?, etc”. Abraços.

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Jairo Siqueira agosto 1, 2011 às 11:55

Caro Flávio,

Grato pelo comentário e pela brilhante contribuição. Como disse Claude Levi-Strauss: O homem sábio não fornece as respostas certas, ele coloca as perguntas certas. Abraços.

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Flávio Teixeira agosto 1, 2011 às 10:54

Muito interessante o seu texto. Pude perceber que o mesmo é direcionado para as relações interpessoais, ou seja, formulação de perguntas inteligentes no relacionamento com pessoas, sejam elas amigos, chefes ou subordinados. O interessante é reparar que a regra vale quando estamos conversando com nós mesmos. Nosso cérebro na maioria das vezes evita a dúvida, ou seja, sempre tem uma resposta para tudo. Não importa como e quando, ele vai querer resolver uma questão que esteja em conflito na sua cabeça. E a solução dessa questão parte da dúvida, da pergunta. Logo, seguindo essa linha de raciocínio, concluo que perguntas medíocres geram respostas medíocres. Em suas reflexões consigo mesmo, tente formular perguntas mais inteligentes (que tenham um maior grau de qualidade). Um bom exemplo, em uma empresa, é quando você pergunta a você mesmo: “Por que eu não sou promovido?” Resposta do cérebro: Porque você não faz um bom trabalho. Vamos melhorar a pergunta: “O que fazer para eu ser promovido?” Resposta do cérebro: Trabalhe mais. Bom, já é uma mudança, mas trabalhar mais pra mim significa aturar por mais tempo aquele chefe chato, ou ficar menos tempo com a família. Acho que podemos melhorar. Vamos tentar formular uma outra pergunta: “O que é eu devo fazer daqui pra frente para ser promovido, e, ao longo das minhas ações, sentir prazer no que eu estou fazendo?” Ah, Fórmula Mágica! Pergunta inteligente, resposta inteligente. Trabalhemos em nós mesmos a capacidade de nos fazer perguntas mais inteligentes.
Espero ter contribuído de alguma maneira com meu comentário. Um abraço!

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