A passagem do Cabo do Medo

por Jairo Siqueira · 5 comentários

em Criatividade, Inovação

Alguns dos maiores obstáculos às iniciativas de inovação nascem dos bloqueios mentais causados por crenças, preconceitos e percepções não comprovadas. São obstáculos imaginários, mas fortemente alienantes e inibidores da criatividade. A história dos descobrimentos portugueses mostra como obstáculos criados pela imaginação limitaram por séculos a navegação no oceano Atlântico.

A passagem do Cabo Bojador

O Cabo Bojador, situado na costa do Saara Ocidental, era conhecido como Cabo do Medo. Recifes de arestas pontiagudas dominam aquela região tornando a navegação muito arriscada. A 25 quilômetros da costa do cabo, em alto mar, a profundidade é de apenas 2 metros. A altura das ondas, a frequência das tempestades, a violência dos ventos, o desconhecimento das correntes oceânicas e a neblina permanente tornavam a navegação extremamente perigosa.

Cabo Bojador
Aqueles que passavam por ele, jamais voltavam. As lendas falavam em mais de 12.000 tentativas fracassadas. Uns acreditavam que os ventos dali em diante sopravam para o sul, impedindo o retorno a Portugal, rumo norte. Outros pensavam que ali acabava o mundo e a neblina era o resultado da evaporação das águas que ferviam ao cair no inferno lá embaixo. As lendas diziam que havia monstros marinhos e remoinhos gigantescos e ferozes. O mar fervia no calor e somente certas criaturas bizarras conseguiam sobreviver no intenso calor e aridez. Dizia-se haver grandes tesouros guardados pro dragões ferozes e gigantes que entravam no mar e destruíam os navios. Os relatos fantasiosos das tripulações que desistiam e voltavam alimentavam as lendas. O Cabo Bojador era considerado intransponível, ali terminava o mundo conhecido. Como iríamos nós, diziam os marinheiros, ultrapassar os limites estabelecidos por nossos ancestrais?

Em 1434, após uma primeira tentativa fracassada, o navegador português Gil Eanes conseguiu passar pelo Cabo do Medo. Com as lições aprendidas na primeira tentativa, aparelhou uma barca de 30 toneladas, com um só mastro, uma única vela redonda, parcialmente coberta e movida a remos. Sua tripulação era de apenas quinze homens. Ao chegar nas proximidades do temido cabo, decidiu manobrar para oeste afastando-se da costa africana. Após um dia inteiro de navegação longe da costa, deparou com águas plácidas e ventos amenos, e então dobrou para sudeste e logo percebeu que havia deixado o Cabo Bojador para trás. Foi uma manobra extremamente corajosa e inovadora pois, devido às limitações dos barcos da época, estes se mantinham sempre nas proximidades da costa.

Bojador: um obstáculo mais mental do que físico

A passagem do Cabo Bojador foi um dos marcos mais importantes da navegação portuguesa. Derrubou velhos mitos medievais e abriu caminho para os grandes descobrimentos e para a quebra do monopólio árabe no rico comércio das especiarias da Índia. Se Gil Eanes pudera navegar além do cabo Bojador e voltar, então que outras lendas eram também falsas? Tudo tornava-se suspeito, exceto o que os portugueses podiam ver e comprovar por si mesmos. Não haveria mais obstáculos intransponíveis e os portugueses se tornariam os senhores dos mares.

A passagem por Bojador mostrou que a maior barreira à navegação era mental e não física. Era o medo, e não os recifes, que impediam o acesso aos ricos mercados da Ásia. No poema Mar Português, Fernando Pessoa expressou muito bem o significado da passagem do Cabo do Medo.

Mar português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

As lições da passagem do Cabo do Medo

Podemos tirar duas importantes lições do notável feito de Gil Eanes. A primeira: os obstáculos reais, no caso dele os perigosos recifes, sempre podem ser superados pela combinação de audácia com criatividade e engenhosidade. A segunda: muitas vezes os bloqueios mentais, formados por crenças, receios, preconceitos e percepções errôneas, não passam de frutos da ignorância e do medo do novo e do desconhecido. A superação destes bloqueios requer uma atitude de questionamento de crenças e preconceitos arraigados. Pode ser um exercício difícil e doloroso, mas tudo vale a pena se a alma não é pequena.

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Sirlei abril 16, 2013 às 15:40

Segue um texto incrivel como exemplo de superar obstaculos. Só serve para passar para pessoas com QI acima de 90

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jaqueline março 21, 2012 às 20:53

PARABENS

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jaqueline março 21, 2012 às 20:38

ôla Jairo !
parabéns por esse trabalho ,hoje foi a primeira vez que vi esse texto interessante ,gostei muito.e apendi com o texto quero mim aprofunda mais.meu sonho é cursa uma faculdade.abraçossssssssss!

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Jairo Siqueira março 22, 2012 às 10:27

Obrigado Jaqueline e conto com suas novas vistas ao meu site. Abraços.

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Jairo Siqueira fevereiro 12, 2012 às 10:11

Reproduzo aqui o comentário de Eliana Rezende no Grupo Cultura e Gestão do LinkedIn:

Olá Jairo…olá Grupo…
Gosto muito de pensar em termos de fronteiras e o quanto elas podem significar um umbral ou um muro. Tudo depende de como as encaramos!
As fronteiras mentais e emocionais são muito mais difíceis de transpor do que aquelas criadas ou dadas por espaços físicos, vincados caprichosamente pela natureza.
Infelizmente em muitos habitam “demônios interiores” povoados de fantasias qto ao que aquela fronteira representará.
Os que se curvam ao medo se sentirão imobilizados e simplesmente permanecerão no ponto de origem.
Os que decidirem fazer dessa fronteira um umbral conhecerão um novo patamar e poderão olhar ao longe como uma dificuldade a menos vencida… até que a nova fronteira se configure. Talvez aí esteja o passo para a inovação
Tal como as fronteiras físicas, tais fronteiras mentais que venceram seus medos buscarão novos desafios… e para o bem da humanidade é assim que o mundo gira e se transforma!
Abs
Posted by Eliana Rezende

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