A passagem do Cabo do Medo
Publicado em January 22, 2012
Categorias Bloqueios mentais, Criatividade, Inovação | Deixe seu comentario
Alguns dos maiores obstáculos às iniciativas de inovação nascem dos bloqueios mentais causados por crenças, preconceitos e percepções não comprovadas. São obstáculos imaginários, mas fortemente alienantes e inibidores da criatividade. A história dos descobrimentos portugueses mostra como obstáculos criados pela imaginação limitaram por séculos a navegação no oceano Atlântico.
A passagem do Cabo Bojador
O Cabo Bojador, situado na costa do Saara Ocidental, era conhecido como Cabo do Medo. Recifes de arestas pontiagudas dominam aquela região tornando a navegação muito arriscada. A 25 quilômetros da costa do cabo, em alto mar, a profundidade é de apenas 2 metros. A altura das ondas, a frequência das tempestades, a violência dos ventos, o desconhecimento das correntes oceânicas e a neblina permanente tornavam a navegação extremamente perigosa.

Aqueles que passavam por ele, jamais voltavam. As lendas falavam em mais de 12.000 tentativas fracassadas. Uns acreditavam que os ventos dali em diante sopravam para o sul, impedindo o retorno a Portugal, rumo norte. Outros pensavam que ali acabava o mundo e a neblina era o resultado da evaporação das águas que ferviam ao cair no inferno lá embaixo. As lendas diziam que havia monstros marinhos e remoinhos gigantescos e ferozes. O mar fervia no calor e somente certas criaturas bizarras conseguiam sobreviver no intenso calor e aridez. Dizia-se haver grandes tesouros guardados pro dragões ferozes e gigantes que entravam no mar e destruíam os navios. Os relatos fantasiosos das tripulações que desistiam e voltavam alimentavam as lendas. O Cabo Bojador era considerado intransponível, ali terminava o mundo conhecido. Como iríamos nós, diziam os marinheiros, ultrapassar os limites estabelecidos por nossos ancestrais?
Em 1434, após uma primeira tentativa fracassada, o navegador português Gil Eanes conseguiu passar pelo Cabo do Medo. Com as lições aprendidas na primeira tentativa, aparelhou uma barca de 30 toneladas, com um só mastro, uma única vela redonda, parcialmente coberta e movida a remos. Sua tripulação era de apenas quinze homens. Ao chegar nas proximidades do temido cabo, decidiu manobrar para oeste afastando-se da costa africana. Após um dia inteiro de navegação longe da costa, deparou com águas plácida e ventos amenos, e então dobrou para sudeste e logo percebeu que havia deixado o Cabo Bojador para trás. Foi uma manobra extremamente corajosa e inovadora, pois, devido às limitações dos barcos da época, estes se mantinham sempre nas proximidades da costa.
Bojador: um obstáculo mais mental do que físico
A passagem do Cabo Bojador foi um dos marcos mais importantes da navegação portuguesa. Derrubou velhos mitos medievais e abriu caminho para os grandes descobrimentos e para a quebra do monopólio árabe no rico comércio das especiarias da Índia. Se Gil Eanes pudera navegar além do cabo Bojador e voltar, então que outras lendas eram também falsas? Tudo tornava-se suspeito, exceto o que os portugueses podiam ver e comprovar por si mesmos. Não haveria mais obstáculos intransponíveis e os portugueses se tornariam os senhores dos mares.
A passagem por Bojador mostrou que a maior barreira à navegação era mental e não física. Era o medo, e não os recifes, que impediam o acesso aos ricos mercados da Ásia. No poema Mar Português, Fernando Pessoa expressou muito bem o significado da passagem do Cabo do Medo.
Mar português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
As lições da passagem do Cabo do Medo
Podemos tirar duas importantes lições do notável feito de Gil Eanes. A primeira: os obstáculos reais, no caso dele os perigosos recifes, sempre podem ser superados pela combinação de audácia com criatividade e engenhosidade. A segunda: muitas vezes os bloqueios mentais, formados por crenças, receios, preconceitos e percepções errôneas, não passam de frutos da ignorância e do medo do novo e do desconhecido. A superação destes bloqueios requer uma atitude de questionamento de crenças e preconceitos arraigados. Pode ser um exercício difícil e doloroso, mas tudo vale a pena se a alma não é pequena.
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Inovar ou melhorar, eis a questão
Publicado em December 20, 2011
Categorias Criatividade, Inovação, Produtividade, Qualidade | Deixe seu comentario
Henry Ford disse certa vez que se tivesse perguntado aos americanos o que realmente queriam, eles teriam dito “cavalos mais rápidos”. A percepção de que a carruagem havia esgotado o seu potencial de melhoria, e que estava na hora de uma alternativa inovadora, ainda não tinha tocado as mentes dos consumidores. Nestas horas, é necessário um empreendedor criativo e audacioso para enxergar as oportunidades e propor uma inovação que rompa com o passado e vá além das mudanças incrementais.
Ao mais desavisado pode parecer que estou ao lado daqueles que pregam o fim e a inutilidade da melhoria contínua e fazem a apologia da inovação permanente. Ledo engano, quem procura manter os pés no chão e a cabeça fora das nuvens, sabe que há uma hora para a melhoria incremental e uma hora para a inovação disruptiva. O segredo do sucesso está em perceber quando chega o momento de abandonar a procura por “cavalos mais rápidos” e substituí-los por outra tecnologia. Enquanto este momento não chega, há sempre muita coisa a fazer para manter o produto competitivo e rentável, esta é a contribuição da melhoria contínua.

Se olharmos o ciclo de vida de um produto ou serviço, pode parecer que há somente dois pontos importantes, o momento de sua criação e o momento de sua renovação ou substituição. Ambos envolvem a inovação disruptiva. No entanto, entre estes dois momentos há um intervalo de tempo que requer ações permanentes de melhorias na qualidade, produtividade e custos, bem como para resolver os problemas que vão surgindo na produção, comercialização e distribuição do produto. Pela inovação a empresa se diferencia de seus concorrentes, pela melhoria contínua ela pode prolongar e ampliar suas vantagens competitivas. Obviamente, a melhoria incremental somente agregará valor a produto que não tenha se tornado obsoleto. Caso contrário, siga o conselho dos índios da tribo Dakota: “Quando você descobre que está montando um cavalo morto, a melhor estratégia é desmontar”.
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Superando o falso dilema entre inovação e melhoria contínua
Publicado em November 30, 2011
Categorias Criatividade, Inovação, Qualidade | Deixe seu comentario
Tem sido muito comum alguns pretensos gurus da criatividade e inovação declararem que somente a inovação disruptiva importa e que não há mais espaço para a melhoria contínua. Por ignorância ou simples oportunismo, tentam sepultar o Kaizen, o Lean Manufacturing, o Six Sigma e outras técnicas de melhoria da qualidade como obsoletas, repetindo: Só a inovação importa, ou inova ou morre.
De fato, hoje as empresas enfrentam um imperativo de mudança, como nunca enfrentaram no passado. O pensamento criativo se tornou uma competência essencial, pois o ciclo de vida de processos, produtos e serviços encolheu. Contudo, isto não significa que a melhoria contínua se tornou dispensável. Mesmo nos ciclo de vida curta há necessidade permanente de ações para corrigir deficiências e realizar melhorias para se retirar o máximo proveito do produto, ou mesmo prolongar sua vida útil. Inovar é importante, mas fazer mais com menos será sempre essencial para tornar as novidades mais lucrativas e competitivas.
Nem todos os setores do mercado requerem inovações disruptivas frequentes. Às vezes, simples melhorias são suficientes para manter o produto competitivo e lucrativo por algum tempo, ou mesmo para ganhar uma sobrevida enquanto se trabalha na sua inovação. Um ponto importante é saber reconhecer quando o produto atingiu sua obsolescência e as melhorias não conseguem mais agregar valor para os clientes. Este é o momento da inovação disruptiva, da substituição do velho pelo novo.
De outro lado, até quando a gestão da qualidade continuará ignorando as ferramentas de criatividade? A literatura sobre gestão da qualidade se mantém virtualmente silenciosa sobre a criatividade e suas ferramentas. Alguns livros e cursos sobre a gestão da qualidade se limitam a mencionar a necessidade de criatividade na solução de problemas complexos sem acrescentar qualquer orientação prática sobre suas técnicas e ferramentas. A única ferramenta de criatividade que parecem conhecer é o velho e bom Brainstorming. Há uma vasta literatura sobre criatividade e inovação oferecendo orientações sobre as ferramentas de criatividade que podem ser muito úteis aos profissionais da gestão da qualidade e melhoria continua.
As empresas, e seus clientes, podem ser muito beneficiadas pelo melhor entrosamento entre melhoria contínua, criatividade e inovação. No próximo artigo -Inovar ou melhorar, eis a questão – abordaremos a estratégia para promover este entrosamento.
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