Para inovar, questione as regras sagradas

por Jairo Siqueira · 3 comentários

em Criatividade, Inovação

Laranja madura na beira de estrada,
Ou está bichada Zé,
Ou tem marimbondo no pé.
Suposições
Esta música de outros carnavais nos fala de suposições: opiniões formadas sem provas certas e positivas. Vejamos como as suposições influenciam nossa mente e limitam nossa criatividade.

Com muita frequência, nos baseamos em suposições para tomada de decisões. As suposições cobrem as lacunas criadas pela ausência ou insuficiência de dados. Algumas se mostram adequadas e outras não. As suposições inadequadas são abandonadas e as adequadas passam a integrar os paradigmas que norteiam nossa vida e nossas decisões. No entanto, raramente percebemos que as suposições são como uma faca de dois gumes. Se de um lado nos ajudam a tomar decisões, de outro lado acabam por criar limitações de como vemos, percebemos e interpretamos mundo que nos cerca e as mudanças que estão ocorrendo. A situação se agrava quando deixamos de perceber que algumas suposições se tornaram ultrapassadas. Neste caso, as consequências podem ser trágicas, como ocorreu com a França no início da Segunda Guerra Mundial.

A Alemanha se preparou para a guerra do futuro, a França para a guerra do passado.

Durante a década de 30, a Alemanha nazista se recupera do desastre da Primeira Grande Guerra, reorganiza suas forças armadas e volta a sonhar com o domínio da Europa. Percebendo a ameaça iminente, a França se põe a planejar sua defesa. O alto comando militar francês acredita que a nova guerra será a repetição da anterior, caracterizada pela guerra de trincheiras e pela lentidão na conquista do terreno inimigo. Um grupo de oficiais discorda desta suposição, destacando-se o então coronel Charles De Gaulle, que prevê uma guerra de avanços rápidos, com o emprego maciço de tanques, aviões e veículos motorizados. As ideias de De Gaulle são rejeitadas e a França decide construir a Linha Maginot, uma série de fortificações ao longo da fronteira com a Alemanha, ligadas por uma extensa rede de túneis. Uma concepção extremada da guerra de trincheiras e um erro que resultará na humilhação da França.

Em junho de 1940, usando as táticas da guerra-relâmpago (blitzkrieg), o exército alemão contorna a Linha Maginot e ataca a França passando pela Bélgica. Em 9 dias de guerra, o grande exército formado pela aliança entre França e Inglaterra é derrotado, a França se rende e Paris é ocupada por soldados alemães. A Linha Maginot jamais foi usada, tornando-se um símbolo de decisões erradas baseadas em conceitos ultrapassados.

Verifique o prazo de validade de suas suposições

Todos nós temos a nossa Linha Maginot mental, suposições que agem como filtros da realidade que nos cerca e criam limitações ao pensamento criativo. Como não podemos dispensá-las totalmente, é imprescindível verificar periodicamente o prazo de validade de nossas suposições. Temos a tendência de estender a vida útil daquelas suposições que se mostraram valiosas em alguma ocasião. Quanto mais bem sucedidos, mais nos apegamos ao que deu certo no passado.

Para inovar, questione as suposições e mude as regras

O primeiro passo, e às vezes o mais difícil, é identificar as suposições que fazemos sobre determinado assunto. Não se engane, seja qual for o assunto, você tem suposições sobre ele, conscientes ou inconscientes:

  1. No exame de uma nova oportunidade de emprego, você faz suposições sobre o futuro da empresa, a evolução de seu mercado, as oportunidades de crescimento profissional, a sua adaptabilidade ao novo ambiente, etc.
  2. Na decisão sobre o lançamento de um novo produto, você faz suposições sobre as preferências dos consumidores, os nichos de mercado mais promissores, as vantagens e desvantagens dos concorrentes, etc.

O passo seguinte é questionar estas suposições e tomar consciência das limitações e bloqueios que elas criam para a sua criatividade. Neste processo, você pode usar a ferramenta Questionamento de Suposições.

O setor de transportes aéreo oferece alguns belos exemplos de rompimento com suposições ultrapassadas e quebra de regras tradicionais:

  1. As companhias aéreas abandonaram o paradigma de um preço único e fixo para um determinado trecho. Já há algum tempo, as tabelas de tarifas aéreas oferecem preços variados conforme o dia da semana, o horário da viagem e a ordem de reserva.
  2. O bilhete de passagem aérea era um documento imprescindível. Se fosse perdido, sua viagem estava comprometida. Hoje, basta apresentar sua carteira de identidade.

Pode parecer que são mudanças triviais mas, na verdade, exigiram o rompimento com regras vigentes há quase 100 anos. Essas regras tinham sido estabelecidas com base em suposições que se tornaram inadequadas com o tempo por uma ou várias razões: inovações tecnológicas, mudanças de hábitos, mudanças na legislação, pressão da concorrência, etc.

Vacas sagradasMuitas vezes, a criatividade se constitui no abandono de alguns conceitos arraigados e na procura de novas regras para o negócio. No questionamento de regras “intocáveis” estão as grandes oportunidades de inovação de processos e produtos e na criação de sólidas vantagens competitivas.

Separe os fatos dos preconceitos

Proponho uma reflexão: Quais são suas suposições sobre os seguintes temas e como elas o influenciam:

  • Trabalhadores idosos.
  • Nossos vizinhos argentinos.
  • Mulheres executivas.
  • Fatores de sucesso profissional.
  • As preferências de seus clientes.
  • As fraquezas de seus concorrentes.

Suas opiniões sobre estes temas passam pelo teste da realidade? São confirmadas pelos fatos, ou não passam de meros preconceitos.

Preconceito: qualquer opinião ou sentimento, seja favorável ou desfavorável, concebido sem exame crítico; intolerância, prejulgamento.

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marcas patentes outubro 13, 2010 às 13:32

Excelente e muito verdadeiro esse post!

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Sandra Mônica Winkelmann novembro 18, 2007 às 01:44

ESSA DAS REGRAS SAGRADAS É MUITO INTERESSANTE. QUER DIZER, ALGUNS ESTABELECEM AS REGRAS E VC DEVE SEGUI-LAS PIAMENTE? OS OUTROS FAZEM AS SUAS LEIS E VC DEVE OBEDECER AS LEIS CRIADAS?

ABÇO,

SANDRA MÔNICA

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Mariana junho 26, 2007 às 20:52

Olá, boa noite!
Gostei muito de sua concepção sobre paradigmas.
Certamente há bloqueios, mas quando se tem a mente aberta a novos horizontes, quebrá-los torna-se um desafio.
Abraços

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