Você tem opinião própria, ou acredita em tudo que lê ou ouve?

Publicado em July 19, 2009
Categorias: Criatividade, Pensamento crítico | 1 Comentário

Quem pergunta é um tolo por cinco minutos, quem não pergunta é um tolo por toda a vida.

Provérbio chinês

Pensamento-critico_3No artigo anterior Pensar é preciso nós vimos a definição de pensamento crítico e sua importância no desenvolvimento de nossas habilidades de raciocínio. Agora veremos como trazer este conceito para o mundo prático. Veremos como o pensamento crítico pode nos ajudar a verificar se uma opinião, teoria ou idéia é incompleta ou confusa, carente em dados e fatos que a apóiem, ou seja, inconsistente e inconvincente.

Imagine o seguinte cenário: você está participando de uma calorosa discussão sobre a legalização do aborto no caso de gravidez indesejada e as duas principais posições podem ser assim resumidas:

Contra: O aborto é o assassinato de uma pessoa inocente ainda não nascida.

A favor: O aborto é uma medida necessária para a redução da criminalidade.

Duas afirmações fortes e carregadas de emoção. Como avaliar estas duas opiniões e tomar uma posição racional e objetiva?

Os 5 passos do pensamento crítico

O primeiro passo é analisá-las e fazer perguntas para descobrir as suposições em que estas opiniões se baseiam. A opinião contrária ao aborto se baseia na suposição de que a vida começa logo no ato de concepção e, portanto, o aborto é um assassinato. A opinião a favor se baseia em duas suposições. A primeira, que a vida começa algumas semanas depois da concepção e o aborto não seria um assassinato, se praticado neste período inicial. A segunda suposição é que as crianças nascidas de gravidez indesejada crescem socialmente desajustadas e com tendências criminosas. Até aqui você deu um importante passo, saindo do terreno emocional e entrando no racional, ou seja, no exame objetivo das suposições em que se baseiam as duas opiniões.

Vamos no concentrar na análise da segunda suposição da opinião favorável à legalização do aborto para ilustrar as demais etapas do processo de pensamento crítico.

O segundo passo é perguntar ao formulador desta opinião em que evidências ele baseia suas suposições. Que dados, estatísticas ou pareceres de especialistas ele pode apresentar para corroborar sua opinião? O que as autoridades de segurança pública informam sobre as causas do aumento da criminalidade? Não raro, você concluirá que algumas suposições se baseiam meramente em preconceitos, dogmas e convicções religiosas e políticas ou grosseiras e interesseiras manipulações de informações e sentimentos.

O terceiro passo é indagar sobre a credibilidade, integridade e reputação das fontes de informação. Quais as suas qualificações e quais seus interesses no tema? Se o tema envolver verbas governamentais ou doações de empresas, use de prudência na aceitação da credibilidade das fontes. Para atrair verbas ou votos, algumas fontes manipulam as informações, evidenciam os dados favoráveis, escamoteiam os dados desfavoráveis e criam cenários catastróficos. Separar as fontes imparciais das demais é um passo crítico.

O quarto passo é o exame da relevância das evidências. Os dados podem nos levar a concluir que há uma correlação significativa entre o aumento da gravidez indesejada e o aumento da criminalidade? Ou será esta mais uma proposta sem nenhuma base na realidade?

O quinto passo é conclusão, com o julgamento da consistência e lógica do argumento inicial. Considerando as suposições, a qualidade e a relevância das evidências, o argumento faz sentido? Mesmo com dúvidas e incertezas razoáveis sobre as evidências apresentadas, a conclusão parece lógica e aceitável?

Nota importante: o pensamento crítico não assegura que você obtenha a verdade final e absoluta sobre qualquer tema, se tal verdade existir. Nem sempre você conseguirá as respostas desejadas de forma completa, totalmente precisas e confiáveis. O benefício do pensamento crítico é que você pode tomar sua decisão de adotar ou não uma opinião, conhecendo em que se baseia, quais seus pontos fortes e fraquezas e quais suas conseqüências. Você estará também preparado para reconhecer a ocorrência de mudanças no mundo real que venham a minar ou fortalecer as premissas em que esta opinião se fundamenta. Mente flexível e aberta é uma atitude de quem procura conhecimento e sabedoria.

Resumindo o processo de pensamento crítico:

Passo 1: Descubra as suposições em que o argumento se baseia.

Passo 2: Indague pelas evidências em que se baseiam as premissas.

Passo 3: Indague sobre as fontes de dados: credibilidade, integridade e reputação.

Passo 4: Examine a relevância das evidências apresentadas.

Passo 5: Julgue a consistência e a lógica do argumento. Faz sentido?

O pensamento crítico não desencoraja ou pretende substituir os sentimentos, emoções e intuição, pois não somos máquinas de pensar. Ao tomar sua decisão final (passo 5) é claro que sua intuição, seus sentimentos e emoções podem ter um papel relevante. O importante é que você tenha consciência de que fatores objetivos e subjetivos o levaram a aceitar ou não uma determinada opinião ou ideia.

Na próxima vez que alguém refutar uma sua ideia inovadora, alegando coisas como “isto não vai dar certo aqui”; “é muito arriscado”, etc., evite entrar em discussão de opiniões vagas, procure seguir os cinco passos do pensamento crítico e descubra o que está  por trás da resistência, ou então, quais as falhas na sua idéia.

Este procedimento é mais trabalhoso do que discutir opiniões, bater boca é mais fácil do que raciocinar, mas certamente o ajudará muito  a construir uma reputação de profissional objetivo e criativo.

Artigos da série Pensamento Crítico:

Pensamento crítico: o ceticismo saudável pode ser um valioso aliado de sua criatividade

Pensar é preciso

As habilidades e atitudes do pensador crítico

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Para uma lista completa, consulte o Índice de Artigos

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Comentários

Uma Resposta para “Você tem opinião própria, ou acredita em tudo que lê ou ouve?”

  1. Sergio on July 23rd, 2009 12:21

    Prático e inteligente. Obrigado por compartilhar conhecimento e experiencia.

    Um abraço,

    Sergio

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